Relato Jornada Quilombola 2017

Por Cibele Mateus – Cia Mundu Rodá

QUILOMBO- QUILOMBOLA- QUILOMBISMO – palavras sempre presentes no meu vocabulário e de meus parceiros pretos e pretas para designar a nossa coletividade afro-brasileira, nossa luta diária contra o racismo, nossa resistência, nossa militância. Eu nunca havia estado num quilombo antes, e quando recebi o convite dos Palhaços sem fronteiras e Circo do Asfalto para uma expedição pelos quilombos do Vale do Ribeira, levando o MATEUS – palhaço da cara preta, cujo venho experimentando-estudando-sendo no meu corpo e na minha alma, me senti agraciada. O convite se deu pela consciência destas pessoas da importância da representatividade negra neste lugar-quilombo e na importância da divulgação deste palhaço Mateus, que representa um cativo na brincadeira do cavalo marinho, e que por meio da brincadeira denuncia as formas de opressão de um sistema colonizador e a relação do empregador e empregado. Sempre é um desafio deslocar a figura do Mateus da tradição do Cavalo Marinho e coloca-lo em outros contextos, e ao mesmo tempo, sempre muito divertido essa possibilidade de invenção de uma nova brincadeira feita do encontro do Mateus com outras “figuras”, neste caso, “os figuraças” do Circo do Asfalto – Francisquinha, Malabarista Diou, Estagiário Téo e Ricardo Avellar. Uma mistura danada de boa de circo com Cavalo Marinho – uma presepada só! Um samba quente! Bom! Onde o riso e o encantamento eram os condutores da brincadeira. Fiquei imaginando o tanto de coisa que eu iria viver pelas bandas do Vale do Ribeira… e vivi, parece mesmo que eu vivi um ano em sete dias – um tempo dentro de outro tempo. (Por isso mesmo esse texto não tem jeito de se encerrar aqui) Pude ver a propriedade coletiva da terra, a o compartilhamento do que a terra dá, a pureza e acanhamento do olhar, a casa de taipa, o fogão a lenha, o cuidado e respeito com o outro, o riso solto de rolar no chão e também grandes contradições e desafios dos povos quilombolas, como o evangelismo nas comunidades, a não presença das religiões de matriz africana, muitas escolas ainda com formatos eurocêntricos, mesmo atendendo uma parcela grande da população quilombola, a negritude sendo trabalhada somente no dia da consciência negra, o racismo, o racismo, o racismo em muitas instâncias, a tentativa de apagamento desta população, a especulação de suas terras por empresas, o medo dos mais velhos de tudo se acabar… Porque você pinta a cara de preto? Ouvi de uma criança quilombola – uma pergunta que me cortou porque veio no tom de coisa feia, ou um professor que disse que eu não precisava pintar a cara de preto (porque já sou preta). Os olhares de espanto-surpresa-deslumbramento-estranhamento-IDENTIFICAÇÃO que o Mateus causava nas pessoas me atravessando a todo o momento. Era o Mateus sendo quem é pra fora, e era a Cibele Mateus observando e se revirando por dentro. Depois era abraço pra todo lado, presepada com o Mateus, bexigada, até autógrafo e conversa séria pra falar de resistência, da trajetória de cada um, explicar de onde vem o Mateus… e por que de SER PRETA E PINTAR A CARA DE PRETO?… Porque é preciso, cada vez mais preciso, como forma de afirmação da minha ancestralidade, como quilombola que sou, como forma de resistência da cultura popular, como luta, como denúncia. Me faço mais preta no preto do Mateus… Meus amigos do Circo do Asfalto e Palhaços sem Fronteiras, saibam que vocês são quilombolas também, exemplo de resistência, do fazer artístico artesanal, de ir onde muitos não querem ir, de reconhecer na cultura popular o alimento pra alma. Gratidão a vida por ter colocado o meu barquinho no mesmo rio por onde navegam os barcos seus. Gratidão aos meus mestres Juliana e Alicio e todos os mestres da Zona da Mata Norte de Pernambuco, ao grupo Manjarra e Azougue, que estiveram e estão comigo por onde vai o Mateus. Essa expedição pelos quilombos não é só no Vale do Ribeira, é uma expedição de vida – de quilombismo diário.