Relato Jornada São Martinho 2017

Por Gabi Winter – Palhaça Jurubeba

Em setembro de 2017 o furacão Irma devastou grande parte da ilha de Saint Maarten. Após receber uma carta de chamado de Albina Matuzko o Palhaços sem Fronteiras Brasil junto com os Clowns Without Borders USA e UK organizaram um projeto emergencial!

 

Foram 3 vôos perdidos, 3 dias de viagem , 4 aviões e finalmente cheguei em Saint Maarten! O coração sempre aperta e as lágrimas escorrem quando estou a caminho destas viagens humanitárias! É muita emoção, um pouco de medo por não saber o que vou encontrar, por ter que ver com meus próprios olhos a dor que assola a maioria desta humanidade mundo afora, ver o resultado de catástrofes naturais e a miséria dos campos de refugiados além do aperto de deixar pra trás as pessoas que amo! Tenho certeza que como sempre, tudo isso vale a pena e me faz ser uma pessoa um pouquinho melhor porque olhar pro outro é olhar pra si e doar é receber muito mais! Que comecem os espetáculos!!!!

 

1 dia para montar o espetáculo, 10 dias de trabalho, 20 apresentações, 3.500 pessoas “atendidas”.

 

O cenário: mar de um verde indescritível que se mistura com um azul caribenho, a parte sul é holandesa e a norte é francesa. Esta foi a que mais sofreu com a passagem do IRMA a 450Km/h. Quem pôde, deixou a ilha e que não pôde tá se virando por aqui.

Muitos saqueadores estiveram um pouco antes e até mesmo durante a passagem do Irma para se aproveitar da situação, enquanto todos estavam recolhidos, estas pessoas de má fé, aproveitaram para fazer a limpa. Há um momento no meio da ventania em que tudo está calmo e em silêncio, este é o olho do furacão, é bem o meio do ciclone e este foi o momento também para saquear…o grande problema é que para entrar nos estabelecimentos, tiveram que quebrar as janelas e portas e é aí que o vento invade e varre tudo o que está dentro. Depois do olho que dura aproximadamente 40 minutos, o furacão vem na outra direção, segundo as descrições, com um barulho assustador.

Muitas casas foram deixadas antes mesmo da chegada do furacão e o que se vê, são regiões totalmente abandonadas, casas destruídas com móveis lindos dentro, o teto caído, escombros ao lado da geladeira de primeira. O centro cultural ainda com livros nas prateleiras, porém sem teto e tudo espalhado. Alguns lugares desapareceram totalmente do mapa. Imagina só, containers voando, barcos como se fossem de brinquedo e casas como se fossem de papel, algumas ruas ainda alagadas e carros capotados, às vezes um em cima de outro e muitos vidros e janelas quebradas, mais de 240 barcos dos mais simples até iates afundaram na lagoa que está no meio da ilha e a maioria dos carros com papel filme nas janelas. As pessoas perderam seus trabalhos nos hotéis, nos restaurantes, os turistas deixaram de vir para cá e o comércio local também sofre! Os homens, muitos deles, viraram pedreiros e como dizem aqui, “ levantadores de zinco “ que é o material que usam para os telhados. Os amigos e muitos parentes foram embora, as escolas perderam áreas esportivas, classes, os resorts 5 estrelas perderam em 3 horas o seu glamour. Isso me faz pensar na vulnerabilidade da vida e no que realmente importa nesta passagem terrena.

 

Mais de 10.000 pessoas abandonaram a ilha para talvez nunca mais voltar. Foi o maior furacão que já passou por aqui.

 

O projeto:Esta é uma parceria de 3 Clowns Without Borders (Brasil/EUA e Inglaterra).

Estivemos trabalhando em escolas , na cruz vermelha e na Cruz amarela e branca, muitos idosos, muitos cadeirantes, pessoas com diferentes síndromes e dificuldades cognitivas e físicas e foi emocionante , o show teve um ritmo todo próprio, com participações espontâneas e muitos abraços ,mas quando è olho no olho, a vitalidade está lá! Talvez esquecida ou subestimada pois o corpo não condiz, mas a chama prontinha pra ser acesa! nem tudo è o que parece ser! Ao final do espetáculo, uma das cuidadoras disse quem gostaria de receber um abraço e apontou duas senhoras, lá fui eu pedir um abraço pra uma delas ueq quase não reagiu, então fui abraçá-la e no momento que a toquei ela bruscamente me abraçou com tanta força e um gemido que pouco a pouco foi coordenando com a minha respiração e com um sorriso finalizamos❤️.nas escolas escutamos coisas como “are u clowns?”, as crianças gritam loucamente com cada queda, cada tropeção, elas realmente vibram, torcem e não tem esta história de aplausos… apenas vivendo o momento…aliás de onde veio isso, pois me parece que orgânico não é! Mas o riso…ahhhh o RISO sim! Este é orgânico e poderoso a ponto de se confundir com o choro, a ponto de descabelar e fazer perder o controle. E tem coisa
Melhor do que isso?

 

Estivemos bastante em contato com comunidades, além das escolas. Apenas conversando com as pessoas, ouvindo as histórias, tocando uma música e testemunhando o resultado da tempestade. Os caribenhos são pessoas lindas e alegres, gente simples que agora tem que se reinventar. Os espetáculos são sempre bem vindos e o encantamento nos olhares reverberam nos nossos, as risadas e gritos ecoam de maneira poderosa dentro da gente. A simplicidade do nosso espetáculo sem pretensão de ser extraordinário já tem força suficiente para trazer alegria, risadas e os sonhos de volta!

 

Estivemos em áreas mais pobres e algumas consideradas perigosas com “maus elementos”, mas a figura do palhaço por si só quebra esta fronteira, a fronteira do julgamento, do medo, da diferença e isso testemunhamos a cada dia quando temos liberdade de entrar numa casa e sentar no sofá, quando escutamos a história emocionada de cada vida e quando fazemos um espetáculo para jovens considerados” ameaçadores” e nos abraçamos e rimos juntos como crianças.

Por que fazemos espetáculos em áreas de vulnerabilidade social ou onde houve algum desastre natural?

Por que é uma ferramenta efetiva para empoderar as crianças e também adultos, recuperar a auto estima e aliviar os traumas. Porque as fazemos esquecer por alguns momentos o que as atormenta e lembrar para sempre o quanto é bom sonhar e que a fantasia é muito importante! A criança feliz, faz sua mãe feliz, que faz o pai feliz que faz todo o entorno se transformar, ela torna-se uma agente dentro da própria casa, sem mesmo perceber.

Como?

Colocando-as em cena, participando de um número, conseguindo girar um pratinho e fazer com que a escola inteira grite o nome dela. Fazendo com que entendam que são também capazes de conseguir e realizar coisas e tudo através da brincadeira, do circo, da risada. Finalizando a apresentação com uma grande ventania criada por elas através de sons e movimentos orquestrados por um dos palhaços, o que nos faz voar de maneira engraçada, desta maneira, ressignificamos o que viveram de maneira assustadora, agora através do jogo.